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Queimadura
Tratada com Banana
Sempre quis compartilhar
essa experiência que me foi muito feliz
e tenho relatado a todos que se interessam. Em 1990 estava
em Londres num jantar de despedida de um grupo que
havia feito um curso de Cultura e Instituições Britânicas
na Bell School, patrocinado pela Cultura Inglesa
onde eu trabalhava então. Sentada junto
a mim a esposa do tutor do grupo, uma inglesa chamada
Mônica com um livro sobre plantas que ela acabara de comprar
e não resistira a tentação de folhear ali mesmo no restaurante.
Curiosa, perguntei
do que se tratava e do porque de seu interesse.
Mônica contou-me então que havia morado com nativos na Indonésia
durante 2 anos quando
realizava seu trabalho de campo para escrever
sua tese de mestrado em antropologia.
Vivia com os nativos nas mesmas condições que eles e com
ela o marido, nosso tutor e a filha de 4 anos.
Acontece que a
menina sofreu uma queimadura grave com água
fervendo (cozinhava-se rente ao chão nas
moradias nativas) e os habitantes locais socorreram a menina aplicando
o sumo daquela flor roxa em formato de coração que pende do
cacho da bananeira. O procedimento
foi lavar a queimadura com água e pingar sobre
toda a área afetada o sumo da flor roxa que logo secou se transformando
numa espécie de casca escura e feia. A recuperação
da criança foi impressionante e dias depois quando
um médico inglês foi visitá-los avaliou que o melhor era deixar
como estava já que a medicina tradicional pouco
pode fazer nos casos de queimaduras e
já que a criança parecia muito bem. A medida em que
a casca formada ia se rachando mais seiva ia
sendo aplicada. Parecia uma casca de cobra, contou-me Mônica. A criança
não tem nenhuma marca e sequer se pode saber onde foi queimada.
Pouco mais de
um ano após esse relato, eu estava em casa aquecendo
leite para dar a minha filha de 6 anos, era tarde, ela sonolenta
e já por isso mesmo agitada esgueirou-se por entre o fogão
e o armário da cozinha o que provocou
a queda da panela com o leite já fervendo sobre suas costas.
Nina gritava e
pulava num desespero que eu até então
nunca tinha visto. Levei-a para o banheiro e meu marido tirou a camisola
de flanela que ela usava. Nesse momento a pele da área
queimada nas costas perto da nuca soltou-se junto e uma área
do tamanho de um limão apareceu em carne viva,
sem sangue. Viam-se os poros
e um líquido transparente que chorava. Os gritos
não paravam enquanto lavava a menina com água gelada do chuveiro. Lembrei-me de
Mônica e de sua filha e pedi a meu marido que corresse para
colher alguns daqueles frutos. Não tinha a menor idéia
do que colocar sobre aquele machucado e me ocorreu tentar
o tal sumo. Morávamos
então em Rio Bonito (estado do Rio de Janeiro) num sítio
onde tínhamos várias bananeiras com cachos. Vítor
andou pelo mato no
escuro e trouxe três "corações". Procedi como
Mônica me havia ensinado. Cortei os "corações"
no lado em que já haviam sido cortados ao serem arrancados
dos cachos e virei-os sobre uma vasilha para que o sumo
escorresse. Nina ainda gritava
de dor quando deitei-a de costas para pingar o sumo na queimadura. Cobri toda a
área afetada e ela protestou ao contato dos pingos, porém
antes mesmo de ter secado completamente ela já tinha se acalmado e
perguntei se doía. Ela então
me respondeu que não. A dor havia passado completamente
e logo Nina adormeceu e deixei que ela dormisse de bruços
vestida com um camisa de trás
para a frente, aberta nas costas, apesar do frio. No dia seguinte
Nina dorminhoca ainda dormia, mas deitada de
costas, quando corri para sua cama para checar a queimadura.
Virei-a com cuidado e ela
nem acordou. A aparência
de pele de cobra, escura, seca e rachando-se era a mesma descrita
por Mônica, o lençol estava manchado assim como parte da
camisa. Assim que levantou Nina se comportava como se nada
tivesse acontecido. Nosso caseiro
conseguiu outros "corações" e repeti o "tratamento"
preenchendo as áreas rachadas com mais sumo/seiva. Na hora de ir
para o Colégio ela, como sempre animada nem queria
pensar em não ir. Vesti nela o uniforme após o banho, que
foi tomado com todo o cuidado para
não molhar o local e não amolecer a casca - única
recomendação dos nativos no caso da filha de Mônica,
e levei Nina para o Colégio. Recomendei a professora para que
tivesse cuidado
e contei o ocorrido também para que não
estranhassem a casca caso fosse notada.
De volta do Colégio,
a blusa estava manchada de marrom, como se a ferida coberta
chorasse um líquido
por entre as rachaduras que apareciam. A noite apliquei
mais sumo/seiva e Nina dormiu bem. Não fosse pela casca feia
nem se poderia dizer que ela tivesse tido qualquer acidente. Por mais três
dias repeti a rotina de colocar mais sumo de
"coração" de bananeira no local. As blusinhas
de colégio ficaram todas manchadas para sempre. A casca começou
a cair antes do quinto dia e sob ela a pele era nova, fresca
como a do resto das costas e nenhuma mancha restou. Uma semana depois
não havia nem sinal do ocorrido.
Claro que algumas pessoas acharam tudo muito estranho e até
uma irresponsabilidade, perigo de infecção, etc., etc. Mas fato é
que não acreditava que no hospital alguém fosse me dar uma solução
e hoje duvido que alguém
se recupere daquela queimadura em tão
pouco tempo. Impressionante
mesmo, até mais que a ausência total da marcas foi o alívio
imediato da dor. Quando se vê o quanto as pessoas queimadas sofrem
pela dor, pelas complicações dos tratamentos
e pelas terríveis marcas deixadas, parece
muita burrice não se procurar entender o que acontece, que
poder tem esse sumo de casca de "coração"
de bananeira que permitiu que o ferimento se
protegesse e cicatrizasse tão bem e tão rapidamente. Gostaria muito
de ajudar alguém com este relato.
Gente, banana!
Sinceramente
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