|
O
Problema Ecológico é
Uma Crise de Percepção
Se uma nave
extraterrena invadisse o espaço aéreo terrestre, com certeza,
seus tripulantes diriam que neste planeta não habita uma civilização
inteligente tamanho é o grau de destruição dos recursos
naturais. São palavras de um renomado cientista americano. Eu diria
que, apesar de os avanços tecnológicos obtidos, a humanidade
ainda não descobriu os valores fundamentais da existência.
O que chamamos
orgulhosamente de civilização nada mais é do que
uma verdadeira agressão às coisas naturais. A grosso modo,
a tal civilização significa a devastação das
florestas, a poluição dos rios, o envenenamento das terras
e a deterioração da qualidade do ar. O que chamamos de progresso
não passa de uma degradação deliberada e sistemática
que o homem vem promovendo há muito, uma autêntica
guerra contra a natureza.
Esta é
a herança que recebemos de uma visão antropocêntrica,
que colocou o homem como o rei da Terra e ignorou que todas as espécies
são igualmente importantes no trabalho de manutenção
da teia da vida. É necessário que surja uma nova era de crescimento
econômico, mas de um crescimento convincente e ao mesmo tempo duradouro
do ponto de vista social
e ambiental. Se nos frustrarmos na transmissão dessa mensagem de
urgência aos pais e administradores de hoje, arriscamo-nos a comprometer
o direito fundamental de nossas crianças a um meio ambiente saudável
que promova a vida.
A pobreza tem
um estreito vínculo com a deterioração ambiental.
Mas que país desenvolvido tem interesse em reduzir a pobreza mundial
e a dívida dos países endividados? Façamos
outras reflexões sobre o tema. As Maldivas,
por exemplo, um país exótico de fartas belezas naturais,
que forma um colar de ilhas a 600 km do sul da Índia,
vive sob a ameaça de ser engolfado pelas águas do Oceano
Índico por estar localizado a apenas dois metros acima do nível
do mar. Essa inundação ocorreria em virtude do aumento do
aquecimento global, com o conseqüente derretimento do gelo das calotas
polares. Será que os países desenvolvidos estão preocupados
com o triste fim que ele poderia ter?
Na realidade, as nações industrializadas estão relutantes
em aceitar uma redução do nível de emissão de gás
carbônico, que é o principal gás responsável
por esse aquecimento (efeito estufa).
E Nauru, a menor
república do mundo? Localizado no Oceano Pacífico, esse país
teve seus dias de apogeu econômico com a exploração
de jazidas de fosfato. Em 1990, sua renda per capita era
uma das mais altas do mundo. Hoje, o que restou de Nauru? Um país
esburacado, com a economia em decadência, que viu perder suas belezas
naturais com a exploração capitalista.
Os que tiveram essa iniciativa desenvolvimentista pensaram nas gerações
futuras? Este é um triste exemplo de desenvolvimento
não-sustentável.
Abordemos um pouco
do que está acontecendo pelas bandas de cá.
A Floresta Amazônica, como é sabido, tem uma enorme
importância no contexto ambiental como formadora de chuvas, pela
riqueza de sua biodiversidade e pelo papel regulador que tem no clima da
Terra, principalmente porque as florestas e os seus solos armazenam a maior
parte do carbono existente
na biomassa terrestre, importante fator para o combate natural ao aquecimento
do planeta. Assim, as queimadas
e o desmatamento provocam a liberação de gás carbônico,
o que agrava o efeito estufa. A destruição das florestas
tropicais acarretaria uma redução das chuvas na região
devido a menor quantidade
de água evaporada pela transpiração das plantas (evapotranspiração).
E o que o Brasil tem feito para conter a exploração econômica
das florestas tropicais, que tem como
conseqüência sua progressiva destruição? Observe-se
que um importante fator de destruição das florestas naturais
é o seu uso como matéria-prima destinada à produção
de polpa para as indústrias de papel e celulose, quando o plantio
de árvores de crescimento rápido
é mais apropriado para esse tipo de indústria e menos impactante
à natureza.
E o que dizer
da poluição do ar? Como as empresas têm como objetivo
o lucro pelo lucro não ficaria melhor são relutantes em
instalar equipamentos antipoluentes para não reduzirem a sua margem
de lucro.
A poluição
das águas é um outro problema sério que enfrentamos.
Poucas são as empresas que têm a consciência de lançar
seus efluentes dentro dos limites de liberação determinados
pelos órgãos fiscalizadores. E quando o fazem, na maioria
das vezes, liberam seus efluentes com valores próximos
ao limite estabelecido por lei. É necessário que se entenda
a importância de se lançar efluentes industriais com a menor carga
possível de poluentes. O lançamento de líquidos dentro
dos limites permitidos não é uma garantia de preservação
ambiental, porquanto, existe uma importante variável em jogo que
é o efeito sinérgico, ou seja, o efeito que
a combinação de várias espécies químicas pode provocar
no meio aquático.
Falar de agrotóxicos
é falar de um veneno terrível que está poluindo o
Brasil de ponta à ponta e que já provocou a morte de um enorme
número de pessoas e outras espécies. Imaginemos que
uma planta tenha acabado de ser borrifada com um desses agrotóxicos.
Observem os danos provocados. O solo é
inevitavelmente contaminado e bactérias úteis
são exterminadas. A planta onde foi aplicado o produto incorpora-o
e essa contaminação atinge os frutos ou as folhas que
são finalmente consumidas pelo homem, causando os efeitos mais devastadores
sobre sua saúde.
No caso de uma
chuva sobrevir à aplicação do agrotóxico, além dos
efeitos mencionados, a extensão do solo contaminada é muito
maior, porque a água tem a propriedade de carrear o produto. Agora,
a água contaminada pode ter um caminho diabólico:
atinge corpos d'água, causando danos à fauna
e à flora, e as populações ribeirinhas que consomem essa
água são também atingidas.
Também
mencionamos aqui quantas milhares de pessoas em todo o mundo perderam a
saúde ou morreram na aplicação
dos agrotóxicos por não disporem de equipamentos de proteção
individual(EPIs) e não terem consciência da sua gravidade.
Na verdade, praga são esses produtos e não os seres vivos
que eles combatem. Eles só interessam às multinacionais que
visam o aumento do seu faturamento cada vez mais. Imaginem se todos os
fabricantes de agrotóxicos do mundo fossem obrigados a fechar suas
portas!
Ao seu uso estão
associados efeitos teratogênicos e carcinogênicos.
Apesar de os fabricantes propalarem a segurança
de alguns de seus produtos, esta informação é inverídica,
haja visto que testes toxicológicos para uma avaliação
imparcial de um produto teria um custo altíssimo que as empresas não
aceitam. Para se ter uma idéia da complexidade de um teste perfeito
dessa natureza, o sinergismo de todos os poluentes
com os quais o homem vem a ter contato teria de ser levado em conta, dada
a agravação toxicológica que se configura
neste caso. Em contrapartida, a agricultura orgânica é a realidade
que produz alimentos saudáveis em harmonia com
o meio ambiente.
O que dizer da
destruição dos manguezais no Brasil? Esses ecossistemas,
conhecidos como berçários, apresentam uma riqueza de matéria
orgânica disponível e, assim, existe uma série
de animais que se reproduzem nesses locais. Ali, os filhotes
são também criados. Os camarões se reproduzem no mar,
na região da Plataforma Continental. As suas larvas migram para
as regiões dos manguezais, onde se alimentam e crescem antes de
retornarem para o mar. Uma grande variedade de
peixes costuma entrar no mangue para reproduzir e se alimentar,
como os robalos e tainhas. Mas tão
importante ecossistema sofre intensa exploração pelo homem,
que retira moluscos, ostras e peixes em quantidades elevadas. O mangue
também é alvo da especulação imobiliária,
que aterra as suas áreas para a construção de luxuosos
condomínios para os bacanas, marinas e indústrias.
Como se nada disto
bastasse, falemos um pouco dos alimentos transgênicos, o mais novo
inimigo do homem e da natureza. São alimentos
alterados geneticamente, que na Europa já são
chamados de Frankenstein foods. A soja transgênica, que está
dando o que falar no Brasil, é uma criação da multinacional
Monsanto e tem a propriedade de ser resistente ao herbicida Roundup. Após tentativas de introdução no Rio Grande
do Sul, o governo gaúcho não só proibiu o seu plantio,
como, recentemente, excluiu do novo programa de benefícios
fiscais as indústrias que processarem alimentos ou insumos geneticamente
modificados. É, porém, lamentável que a Empresa
Brasileira de Tecnologia Agropecuária (Embrapa) e a Comissão
Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) já estejam
acenando favoravelmente para a entrada de alimentos transgênicos
no país. Mais uma vez nos curvamos ante às multinacionais
e à ganância de lucro.
O comentário
que fiz anteriormente para os agrotóxicos também se aplica
aos alimentos transgênicos: um estudo perfeito para comprovar
a inocuidade desses produtos custaria caríssimo às empresas
e só após anos de pesquisa teríamos os seus resultados.
Esta sim seria uma forma ética de lançar um produto no mercado,
com a real preocupação com a saúde humana e a natureza.
Entretanto, já há estudos de cientistas independentes que
não foram comprados por multinacionais, que comprovam os efeitos
deletérios desses alimentos sobre o sistema imunológico.
É o caso do pesquisador Arpad Pusztai, do Roswell Institute,
de Aberdeen, na Escócia, afastado de suas funções
ao divulgar que, em suas experiências, ratos alimentados com batata
transgênica tiveram problemas graves no sistema
imunológico e em órgãos vitais. Felizmente, 22
cientistas de dezesseis países assinaram manifesto em defesa do
pesquisador.
E então,
amigos? Como despertar o sentimento ecológico para deter a destruição
da natureza e reintegrar o homem ao seu habitat?
Para a ecologia profunda, é uma crise de percepção.
Nossa noção confortadora da permanência de nosso mundo
natural, a confiança de que só mudará de forma gradativa
e imperceptível, se é que vai mudar, é, portanto,
o resultado de uma perspectiva
sutilmente distorcida. Essa percepção está ligada
a uma revisão de vida, de conceitos e valores, a um encontro
de cada um de nós com as profundezas do nosso eu. Enfim, está
conectada a valores espirituais e religiosos, que se contrapõem
aos interesses imediatistas, gananciosos e à maquiagem do capitalismo
verde. Igualmente se opõem à visão
cartesiana do mundo, ao pensamento linear que está
nos levando para o buraco.
|